No dia 1º de julho de 2018, houve eleições presidenciais no México. Não foram eleições usuais para o país norte-americano, contudo. Com ampla maioria de votos, Andrés Manuel López Obrador (AMLO, como é também conhecido) foi eleito presidente. Conseguiu o feito inédito de ter mais de 50% dos votos válidos em uma nação que escolhe seus líderes em somente um turno eleitoral. A ascensão de Obrador representa uma reviravolta para o país que, há décadas, é governado por partidos e cacoetes políticos fossilizados.

A difícil busca pela alternância

Em 2000, a vitória de Vicente Fox pelo PAN (Partido da Ação Nacional) interrompeu uma hegemonia de mais de 70 anos(!) do PRI (Partido Revolucionário Institucional). Multidões foram às ruas comemorar o feito e houve uma forte percepção de mudança que, ao fim, não se concretizou a contento. O governo de então continuou relativamente ligado aos hábitos políticos de sempre e a linha econômico-social não teve reviravoltas. Quando o PRI voltou ao poder, com Peña Nieto em 2012, já se falava em uma “alternância insuficiente”. O período compreendido entre a eleição do liberal Carlos Salinas (1988) e os dias atuais (2018) acabou sendo chamado de “o regime de 1988”, essencialmente liberal em economia e comedido em ações sociais.

A construção de certas instituições, como um processo eleitoral mais confiável, e a agenda de responsabilidade fiscal podem ter ficado como legados desse período recente. São ganhos dos quais os mexicanos não querem abrir mão, mas passam muito longe de satisfazer uma sociedade que não tolera mais os elevados níveis de desigualdade, de violência e de corrupção do país.

A esquerda no poder

Não é exatamente rigoroso considerar AMLO como o primeiro presidente de esquerda eleito no México. Lázaro Cárdenas, pai do populismo mexicano, pode ser classificado com um membro da esquerda, apesar de algo contaminado pela moda, comum nos anos 1930, do corporativismo advindo do fascismo italiano. Não chegou a assumir, porém, claras posições fascistas como Perón, na Argentina, ou Vargas, no Brasil. Também López Mateos, em momento posterior, foi um representante da esquerda, tendo apoiado a revolução cubana, inclusive.

Obrador, por seu turno, logrou alcançar uma aliança peculiar para garantir sua vitória nas urnas. Um de seus mais estreitos colaboradores foi Alfonso Romo, um empresário do norte do país (região mais desenvolvida) e que se mostrou fundamental para fazer a ponte entre AMLO, o empresariado e o mercado. Romo será o equivalente a ministro da Casa Civil do novo governo. Após as eleições, Romo garantiu em entrevista que a tão criticada reforma do petróleo levada a cabo por Peña Nieto, com quebra do monopólio estatal, seria mantida. Acrescentou que o presidente desregulamentaria mais o setor bancário e flexibilizaria a capacidade de investimento dos fundos de pensão.

A campanha de AMLO ampliou sua abrangência por meio de uma importante aliança com os evangélicos ultraconservadores (na verdade, de posição reacionária). Mesclando ainda mais seus apoios, contabiliza-se, também, o PT (Partido do Trabalho), que representa uma franja de extrema esquerda, posição ainda presente na América Latina como refugo da Guerra Fria, mas já algo incipiente.

A par desse caldo inusitado de alianças, o que fez a diferença na eleição de López Obrador foi a ânsia por mudança de uma população sufocada por mazelas sociais que parece ter chegado a um ponto de inflexão. O afluxo de jovens a sua candidatura foi intenso, além de uma história pessoal de ligação a movimentos sociais ter fortalecido a percepção de que o candidato do novíssimo partido MORENA (Movimento de Regeneração Nacional) poderia representar uma superação da velha manutenção de desigualdades. O candidato prometeu realizar uma verdadeira “Quarta Transformação”, que seria tão marcante para o país quanto foram a Independência (1821), a Reforma (1858) e a Revolução (1910).

Responsabilidade econômica, negação do autoritarismo

Sua intensa batalha para mostrar que seria possível cumprir o que prometeu sem provocar uma degeneração econômica ou social no país parece ter convencido uma ampla parcela da população. Sua eleição, por sinal, não causou reviravoltas no mercado e o otimismo está presente mesmo entre alguns membros da velha elite. O termo “AMLOve” foi amplamente utilizado na campanha para enfatizar que o político que outrora tinha uma retórica típica da esquerda populista havia se tornado palatável e moderado.

As comparações com o chavismo venezuelano, cuja degeneração reacionária e autoritária tem causado um enorme prejuízo à imagem das esquerdas na América Latina, foram inevitáveis. Sua resposta, contudo, não foi tímida. Rechaçando completamente esse tipo de analogia, chegou a declarar que “não apostamos em construir uma ditadura, nem aberta e nem encoberta”. Mais claro do que isso, impossível.

Acenando à porção mais liberal da sociedade, garantiu que “haverá liberdade empresarial, de expressão, de associação e de crenças”. Seu ministro da Fazenda será Carlos Urzúa, um economista com doutorado nos EUA e que foi professor da Universidade de Princeton. Trata-se de um “scholar” com ampla experiência, tendo sido consultor do Banco Mundial, da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, órgão da ONU), da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e de várias empresas mexicanas.

Como Secretário de Relações Exteriores (a exemplo dos EUA, o México chama seus ministros de secretários), Marcelo Ebrard foi o escolhido, por seu bom trânsito e boas relações com os Estados Unidos. O vizinho do norte será uma prioridade para o novo presidente.

Seguindo os passos de Trudeau, primeiro ministro do Canadá, Obrador quer formar um gabinete ministerial com equilíbrio de gênero. Afirmou, também, que convidará o presidente Trump para sua posse, além do já citado mandatário canadense.

Em relação à pressão pelo retorno da democracia na Venezuela, sua posição deve ser a de não interferência e de neutralidade, mesmo diante da degeneração autoritária do regime de Maduro. É importante lembrar que as chancelarias do Uruguai e do Canadá, ambos governados por partidos de esquerda, têm tido destaque na pressão pelo restabelecimento democrático venezuelano e na crítica ao autoritarismo à la Zimbábue do líder chavista. Ambas estão bem ativas, tanto no âmbito da OEA quanto no do chamado Grupo de Lima, mas o futuro presidente do México, apesar de ter se tornado também um crítico de Maduro, não deverá se meter nisso.

Não se pode dizer que Obrador represente o novo na política. Venceu na sua terceira tentativa em eleições presidenciais e foi prefeito da importante Cidade do México. Neste último cargo, conseguiu diminuir os alarmantes índices de poluição da cidade e levou a cabo políticas de inclusão social. Fez isso , contudo, mantendo uma impressionante responsabilidade fiscal, um dos motivos pelos quais o mercado não se assustou com sua vitória nas eleições.

Nova chance ao Liberalismo Social?

Esse processo de moderação lembra em tudo o de Lula no Brasil, quando este assumiu uma posição característica do Liberalismo Social em seu primeiro mandato, abrindo mão, à época, de uma retórica ultrapassada. Apelos têm sido feitos para que Obrador assuma justamente a postura do Lula inicial (“early Lula”), de responsabilidade econômica aliada à atenção social, sem sucumbir, contudo, a desvios e tentações populistas ou à corrupção, algo que o lulismo não conseguiu evitar a contento.

Ainda é cedo, contudo, para saber como será exatamente o estilo de López Obrador na presidência, principalmente diante de suas alianças heterogêneas. O mundo político, após incontáveis tragédias, mostra que a maneira historicamente mais promissora de se governar um país é aquela que se caracteriza por uma alternância verdadeira e legítima entre a direita moderada e a esquerda moderada. Os extremos ideológicos, tanto à direita quanto à esquerda, representam as posições politicamente reacionárias por excelência (refratárias à mudança do status quo, autoritárias e anti-liberais) e não podem ser considerados como opções. São, antes, erros que devem ser evitados.

A América Latina tem os exemplos positivos do Chile pós-democratização e, principalmente, do Uruguai. Este último e o Canadá são os dois únicos países das Américas considerados “democracias plenas” pelo prestigioso ranking “Democracy Index”, da revista The Economist.  A região tem, por outro lado, vários tristes exemplos negativos, como o atual governo autoritário de Maduro, na Venezuela, e o não muito antigo caso do regime de Fujimori, no Peru, igualmente autoritário e de triste memória.

A esperança é de que AMLO represente uma reviravolta do México rumo ao progressismo moderado, o que poderia dar margem a uma saudável e desejada alternância política virtuosa no país, em um médio a longo prazo. E que ele evite, claro, cair nas armadilhas populistas e reacionárias nas quais caíram e caem, muitas vezes, os governos latino-americanos, tanto à direita quanto à esquerda. A ver.

“Quarta Revolução”

O jornalista espanhol Javier Moreno resumiu bem as missões da nova “revolução” de Obrador: “A Revolução Francesa, após as inevitáveis convulsões, proporcionou estabilidade e reconheceu a propriedade para a burguesia que a provocou, frente aos direitos da aristocracia e do clero. A ‘Quarta Revolução’ do presidente López Obrador terá que urdir uma tapeçaria infinitamente mais complicada: crescimento com ortodoxia econômica; uma repartição equitativa desse esforço que alcance também os mais desfavorecidos; ampliação dos direitos dos cidadãos e sua proteção efetiva frente à criminalidade e à violência; consolidação do tecido civil e das instituições que o México conseguiu, apesar de tudo, construir nos últimos anos e programas efetivos para acabar ou reduzir a corrupção a níveis toleráveis. Em suma, a inserção definitiva e irreversível do país na modernidade do século XXI. Uma tarefa hercúlea, de fato.”